Quaresma: Tempo sagrado de conversão e renovação interior
A Quaresma chega de novo, sempre nos chamando a acolher a Boa Notícia a partir de dentro, a partir da conversão do coração. Embora “sejamos pó e ao pó retornaremos”, o que é mais autêntico em nós se revela no serviço e no amor, como Aquele que afirmou ser o caminho, a verdade e a vida
Estamos iniciando mais um percurso quaresmal, centrados na pessoa de Jesus Cristo, crescendo na identificação com Ele e dando uma feição nova ao seguimento.
Sabemos que a Quaresma é um caminho de discernimento e mudança. Os meios que ela oferece para esta transformação espiritual são as chamadas “práticas quaresmais”: jejum, oração e esmola. O jejum nos ajuda a recuperar a liberdade frente às desordens de todo tipo, adotando um estilo de vida mais simples; a oração faz com que todo o nosso ser se volte para Deus e nos deixemos conduzir por Ele; a esmola nos arranca de nossa comodidade e ativa em nós as atitudes de compaixão, solidariedade e cuidado, fazendo-nos passar da indiferença à responsabilidade diante dos outros, sobretudo dos mais pobres e excluídos.
“Eu moro em mim mesmo. Não faz mal que o quarto seja pequeno. É bom, assim tenho menos lugares para perder as minhas coisas” (Mário Quintana). Para podermos viver o tempo quaresmal com mais intensidade e inspiração, vamos entrar em sintonia com a Igreja no Brasil que nos propõe a Campanha da Fraternidade como mediação para despertar nossa sensibilidade diante de situações desumanizantes em nossa realidade. Com o tema: “fraternidade e moradia”, e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), a Campanha da Fraternidade quer trazer à tona o drama da falta de moradia que afeta grande parcela de nosso povo.
O que é “estar em casa” para nós hoje, num mundo estranho e em constante mudança? O que significa “casa” para nós atualmente? Que tipo de sentimento está conectado a ela? Onde nos “sentimos em casa”?
O drama da falta de moradia para todos é sintoma do caos presente no interior de cada um. O problema da moradia não é só uma realidade externa; existe uma crise de moradia muito mais grave que a falta de casas: é a escassez de pessoas interiormente acolhedoras e disponíveis para seus irmãos.
Uma das metáforas bíblicas mais adequadas para entender nosso momento atual é aquela que fala do “regresso à casa”. Embora existam demasiados ruídos, fugas, competições, vivências superficiais nesta sociedade incerta e estressada e que parecem afogar a pessoa, não é difícil perceber um anseio interno que se expande e que pode ser resumida nesta expressão: “desce depressa, pois hoje devo ficar em tua casa!”.
Com frequência, as pessoas se acomodam em sobreviver, não investem seus recursos internos numa causa mobilizadora e acabam atrofiando o sentido de suas vidas. E, no entanto, se elas prestarem um mínimo de atenção à voz interior, sentirão o brotar do desejo de uma vida mais plena, ativarão a escuta do Mestre interior que, com frequência, sussurra: “retorna à tua casa!”
O ser humano aspira viver em sua casa interior e, por mais distante que esteja da mesma, o sentimento mais forte é o da saudade. Na vida de cada pessoa acontece uma transformação radical quando ela é capaz de experimentar, em si mesma, esse “lugar” interior, referido com a imagem da “casa”. Um lugar de silêncio, em meio a qualquer agitação das ondas; de calma, em meio a qualquer tempestade; de luz, em meio a qualquer obscuridade; de alegria serena em meio a qualquer mal-estar ou angústia…
Esse é o lugar onde a pessoa se reconhece a si mesma: ali ela sente o seu ser, para além daquilo que ela faz. E só ali é possível o “descanso”, no sentido mais profundo dessa palavra. E é justamente desse lugar onde brota o convite que se repete: “retorna à tua interioridade!”
“O ser humano só está em casa no mistério de Deus” (Clemenz Schmeing). Só quando ele experimenta o “mistério de Deus” que está presente nele é que poderá verdadeiramente se “sentir em casa”. Ele só pode permanecer nele mesmo porque se sente habitado pelo próprio Deus que o sustenta e lhe fala ao coração.
Trata-se da “tenda interior” na qual o próprio Deus faz sua morada nele; ali, é plenamente ele mesmo, verdadeiramente em casa. Ele precisa apenas olhar para dentro e transitar pelos espaços interiores. Descobrirá, então, que o céu está nele e ali, no céu interior, está a verdadeira “terra prometida” que ninguém pode roubar ou destruir.
No contexto social pós-moderno as pessoas relatam que perderam não somente seu lar exterior, mas também o interior. Elas se percebem sem o sentimento de acolhida e proteção; elas já não sabem mais quem são; perderam seu vínculo de pertença, além de não mais saberem o que as sustenta; não sabem mais onde poderão encontrar segurança e acolhimento.
Diante da “cultura líquida” e “deslocada” na qual vivemos, é urgente gerar espaços e tempos que facilitem reabrir as vias da interioridade, possibilitar o retorno à “morada interior”, onde é gestada a própria identidade e as opções mais sólidas. Espaço e tempo no qual podemos entrar em contato com algo que a plenifica e a expande.
Nesse sentido, a vivência da Quaresma revela-se como uma excelente oportunidade para “voltar à casa interior”. Pacificados em nossa “casa interior”, brotará em nós uma sensibilidade solidária para lutar em favor de uma moradia digna para todos.
Neste mundo disperso e distraído, a vivência quaresmal pode dar referências e amparo; no percurso que fará, cada um vivenciará sua casa interior; entrará em contato com algo nobre no coração que pode estar encoberto por feridas, traumas, fracassos, sentimentos negativos…; ativará o anseio pelas raízes, a partir das quais poderá viver com mais inspiração e criatividade.
Quem habita em si mesmo, quem está desperto para aquilo que é mais nobre e que cuida dos seus movimentos interiores (inspirações, intuições, desejos…), construirá uma casa que será convidativa para que outros se aproximem, se sintam acolhidos, protegidos, amados…
No evangelho, Jesus nos convida a retirar-nos para o nosso “quarto”; é aí o nosso deserto: trata-se de um lugar íntimo, sagrado, onde nenhum estranho tem acesso, todo impregnado de solitude e silêncio. É o lugar sagrado da nossa casa. Esse “quarto interior” é habitado por uma Presença providente e compassiva; só quem tem acesso ao seu “eu” mais profundo descobrirá que ele é “morada” do Senhor e que quer estabelecer um diálogo amoroso com ele.
Em grego, o termo “quarto” (“tameión”) significa também celeiro, local onde se guardam as provisões.
Por isso “quarto” quer dizer também lugar onde estão guardados os alimentos, o sustento de cada dia, as energias, a criatividade, os sonhos, as intuições… É o lugar dos nutrientes indispensáveis para a vida.
Jesus insiste no caráter secreto desse lugar, de onde podemos escapar dos olhares alheios. É decisivo que a nossa única preocupação seja a de nos colocar apenas diante o olhar de Deus; o que conta é rezar com o coração: trata-se de reservar aí um espaço destinado exclusivamente a Deus.
Quando fazemos a experiência desse retorno à nossa “morada interna”, descobrimos que esse é o tesouro escondido, tão próximo, tão íntimo, capaz de transformar a nossa vida, nosso modo de proceder, de nos relacionar e de nos comprometer.
Texto bíblico: Mt 6,1-6.16-18 Na oração: Que mediações você vai ativar durante a Quaresma para ajudar a esvaziar sua “casa interior” e abrir espaço para a atuação livre de Deus? – Como você se sente em sua casa interior? Precisa abri-la, arejá-la, modificá-la, iluminá-la… É espaço de acolhida, de gratuidade, de serviço…? Ou há falsos senhores que a habitam, travando o fluir de sua vida?
Irmã Ailda B. Klüppell, CP


