“Crônica para um Domingo de dia dos pais”

Num Domingo igual a este dedicado ao dia dos pais que ele se foi. Um Domingo de Dezembro. De Advento. Das missas e dos cafés dos Congregados Mariano. Do chimarrão quebrando o jejum enquanto coloca a costela no fogo. Do jaleco, terno e sapato impecáveis para se apresentar no Altar como Ministro da Eucaristia. De braços abertos dando as boas vindas na porta da Matriz. Fim de missa, depois das novas na roda de amigos, uma parada no Bibe para mais uma cuia de chimarrão. Antes de conferir o fogo, liga a TV para uma moda de viola do Rolando Boldrin. Enquanto sapeca a costela, solitário, puxa seu velho acordeão e a música agora é no vai e vem de sua sanfona. Houveram Domingos de casa cheia, filhos e netos. Os três filhos partiram antes. O mais velho na década de 70, o caçula na de 90 e o do meio no raiar dos anos dois mil. Chorou, sofreu, seguiu. Ficaram suas meninas. Três! Amorosas, sempre presentes, faziam seus gostos e vontades até no derradeiro Domingo. Atendendo seu pedido, nada de tristeza, queria que fizesse até costela. Aí não tem como, cadê o churrasqueiro?
Domingo dia de clássico, seu Ferroviário e Colorado não dava paz. Os foguetes quando não vinham do outro lado da linha de seu Jomar Coxa Branca, eclodiam a duas quadras do seu Renato Rubro Negro.
Resmungava, mas o show de calouros do Silvio Santos o alegrava.
Mestre de Linha, aposentou contrariado na Rede Ferroviária, não queria parar. Trabalhou em inúmeros descarrilamentos estrada de ferro a fora, até que numa passagem de nível sofreu o seu. O vagonete em que trafegava foi acolhido por uma Rural. Forte, sobreviveu!
Domingo dia dos pais, hoje sou pai. O meu foi duas vezes pai. Avô mais que um pai!
Já deficiente da visão, fazia a minha barba e a dele. Bebida alcoólica, só cerveja nos Domingos festivos. Porém, em seus últimos meses fazia questão de um gole de conhaque antes do almoço. Com o cálice em riste dizia: “Edson, para quem sabe beber é um santo remédio; para quem não sabe é a perdição!”, recado de todo santo dia.
A noite ao colocá-lo na cama, na bênção de boa noite rezava: “que Deus permita que alcancemos o dia de amanhã!”.
Até que num Domingo foi mais além, foi alcançar os braços de Deus Pai!