Atividades práticas e resgate da autoestima encorajam participantes do Supera Rua
“Para mim foi uma benção. Estive na rua por três anos. Vivia mendigando, pedindo comida, andava todo sujo, barbudo, usava drogas, álcool. Era discriminado”. É dessa forma que Vanduir, 52 anos, descreve a retomada de vida proporcionada pelo Supera Rua, programa da Prefeitura de Pinhais que intensifica ações de transformação social para as pessoas em situação de rua. Assim como ele, outros colegas que participam da iniciativa relatam os benefícios do resgate da autoestima, melhoria da saúde e das oportunidades de formação.
Um dos principais objetivos do Supera Rua é contribuir para que os participantes ganhem autonomia para trilhar a vida e decidam como cuidar da própria saúde, finanças, relacionamentos e bem-estar. Lançado em março de 2024, sob coordenação da Secretaria Municipal de Assistência Social (Semas), o programa qualificou os atendimentos em 2025 e foi considerado modelo para outras cidades e até outros países. São oferecidas atividades práticas, cursos e oficinas, rodas de conversa e opções de lazer, além de encaminhamento aos serviços de saúde. Ao comparecer aos compromissos e ao centro de acolhimento conveniado – uma chácara em Piraquara –, os participantes ganham uma bolsa-auxílio.
Vanduir, por exemplo, está guardando dinheiro para comprar eletrodomésticos e mobília. “Quero ver se consigo comprar uma televisão, uma geladeira, um fogão, essas coisas, um celular também. Quero ter um lugar meu para morar”, diz. Ele faz uma atividade prática de meio-período com equipes da Secretaria Municipal de Obras Públicas (Semop). Demonstra gratidão à Prefeitura de Pinhais e à irmã, que o ajudou a ingressar no programa. “Falei que não aguentava mais aquela vida e queria um internamento”. Depois de alguns meses em uma clínica para desintoxicação de substâncias, iniciou as atividades regulares do Supera Rua.
Todos os participantes são acolhidos por uma assistente social e um educador social que atuam de forma exclusiva no programa, além de outros profissionais da Semas, como psicólogos e outros especialistas. Segundo a assistente social Talitha Jordani Muzi, o valor da bolsa-auxílio é de R$ 700, pago de forma proporcional à frequência nas atividades práticas, oficinas dirigidas e a quantidade de dias que a pessoa vai ao Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), quando exigido. O Supera Rua está embasado na Política Nacional para a População em Situação de Rua (PNPSR), que visa garantir acesso amplo e seguro aos serviços públicos.
Planejamento de vida
A trajetória de Valdecir, 47 anos, foi um pouco diferente: ele nem chegou a ir para as ruas. No ano passado, ao se separar da mulher e sem ter para onde ir, procurou ajuda no Centro de Atendimento Psicossocial (CAPS), por indicação de um amigo. De lá, foi encaminhado ao Supera Rua, com a possibilidade de ficar em abrigo e realizar as atividades do programa – no caso dele, na Secretaria Municipal de Meio Ambiente (Semma).
Vários dos participantes do Supera Rua têm expectativa de serem contratados por empresas terceirizadas que prestam serviços para a Semop e Semma, como já ocorreu com integrantes anteriores. “Vamos ver se serei efetivado. Ou terei que arrumar outra solução para mim. Estou guardando meu dinheiro no banco, até eu me estabilizar, para poder dar o primeiro passo. Se eu dar um passo maior que a minha perna, sei que eu vou cair em um buraco lá na frente. Então a gente tem que ir aos poucos, para estabilizar, caminhar com as próprias pernas”, relatou Valdecir.
Leonardo Henrique, 35 anos, têm outros planos: ainda que aprecie a rotina de atividades da Semma, ele pretende trabalhar com tecnologia de informação. Com a bolsa-auxílio que recebe, paga um curso técnico. “Após sair da fase de rua, eu falei que ia atrás dos meus sonhos, e estou embarcando nessa. Com o programa, estou pagando do meu bolso, graças a Deus. Mas também estou fazendo um tratamento de saúde, preciso comprar uns remédios, preciso ser responsável com o dinheiro”, compartilha.
Ele conta que saiu de casa por situações de violência doméstica, e depois disso permaneceu nas ruas por cerca de cinco anos. Com a atividade de limpeza e conservação na Semma, reconquistou a autoestima. “Quando estava nas ruas, via a reação das outras pessoas, a cara fechada, me sentia marginalizado. Era muito humilhante. Agora, com o trabalho no Meio Ambiente, vejo o sorriso das pessoas. E tem a chácara, os colegas, é muito bom”.
Segundo Leonardo, os servidores da Prefeitura de Pinhais dão muito apoio aos participantes. “É muito bacana, porque no Supera Rua há esse olhar, que cada pessoa é única. Tudo que podem fazer para ajudar, estão fazendo. Pinhais é uma ‘mãe’, nesse sentido”, acrescenta. Para além dos serviços públicos prestados, o programa tem evidenciado o potencial de cada frequentador – inclusive com aprovações em concurso público, retomada de vínculos familiares e outras conquistas profissionais.
Serviço
O acesso ao Programa Supera Rua pode ser espontâneo ou por encaminhamento de outros serviços sociais, sujeito a validação técnica. Consulte o Creas para mais informações. Atendimento de segunda a sexta, das 8h às 17h. Endereço: Rua 25 de Dezembro, 363, bairro Estância Pinhais. Telefone/WhatsApp: (41) 99228-2982


