Quando a esperança encontrou um novo lar

Por Redação 4 min de leitura

Por amor aos filhos, deixaram tudo para trás. Após enfrentar a fome, a escassez, o preconceito e a difícil decisão de deixar a Venezuela, e reconstruir a vida da família em Piraquara, no Paraná. Hoje, eles mostram que o trabalho, a fé e o esporte podem transformar vidas e que sempre é possível recomeçar.

Para milhões de venezuelanos, a crise deixou de ser apenas uma notícia para se tornar uma luta diária pela sobrevivência. Entre essas famílias está a de Jonither Eduardo Villamizar Rojas e Francelis Coromoto Rojas Piamo, que encontraram em Piraquara, na Região Metropolitana de Curitiba, a oportunidade de escrever um novo capítulo de suas vidas.

Em 2019, permanecer na Venezuela já não era uma opção. O salário mínimo equivalia a cerca de oito dólares por mês, valor insuficiente até para comprar um quilo de arroz. Em casa, a comida precisava ser dividida entre todos, priorizando a mãe, que estava grávida, e o filho mais novo. Em alguns momentos, a família sobreviveu apenas com arroz ou macarrão. Os apagões duravam dias, deixando bairros inteiros sem energia e sem água. Em uma dessas ocasiões, recorreram à água da chuva para atender às necessidades mais básicas.

Diante dessa realidade, o casal tomou a decisão mais difícil de suas vidas: deixar o país em busca de um futuro para os filhos. A primeira parada foi a Colômbia. Pouco tempo depois, a pandemia trouxe novos desafios. Sem emprego e sem renda, o casal comprou um pequeno carrinho de lanches e passou a vender comida nas ruas. Muitas vezes, o almoço da família era justamente aquilo que não havia sido vendido.

Com muito esforço, conseguiram comprar um terreno e construir uma casa simples. Porém, a instabilidade financeira e o preconceito contra estrangeiros mostraram que seria necessário recomeçar mais uma vez.

Em 2023, venderam o único patrimônio que ainda possuíam na Venezuela e seguiram para o Brasil levando poucas malas, mas uma grande esperança.

Ao chegarem ao Paraná, passaram dois meses em um abrigo enquanto aguardavam a documentação. Também precisaram vencer a barreira da língua. O português foi aprendido na prática, entre entrevistas de emprego, atendimentos e conversas do dia a dia.

Foi em Piraquara que a família encontrou acolhimento e a oportunidade de reconstruir a vida. Hoje, Jonither trabalha como operador de montagem, enquanto Francelis atua como cuidadora de idosos. O esforço do casal logo começou a refletir na vida dos filhos. O primogênito, Jesus, segue o exemplo do pai, trabalhando e construindo sua própria família. Francisco conquistou seu primeiro emprego como auxiliar de almoxarifado e também se destacou no esporte, garantindo vaga na fase final do Campeonato Brasileiro de Karatê. Outro motivo de orgulho é Jonathan Samuel, que conquistou a medalha de bronze no karatê nos Jogos Escolares do Paraná . A irmã mais nova acompanha cada conquista dos irmãos e cresce inspirada pelos exemplos de dedicação, disciplina e perseverança e já sonhando com as primeiras competições.

Mais do que medalhas, empregos ou patrimônio, a família encontrou no Brasil pessoas que estenderam a mão, fortaleceram sua caminhada de fé e ajudaram a transformar o recomeço em uma nova realidade. Hoje, já conquistou um carro, adquiriu dois terrenos e está construindo a casa própria, frutos de muito trabalho, união e perseverança.

A história da família Villamizar Rojas mostra que o verdadeiro heroísmo nem sempre ocupa as manchetes. Muitas vezes, ele está na coragem silenciosa de um pai e de uma mãe que enfrentam o desconhecido para garantir aos filhos aquilo que nunca deixaram de acreditar ser possível: um futuro melhor.

Mais do que uma história de imigração, esta é uma história de amor, coragem, fé e recomeço. Algumas famílias herdam bens. Outras deixam um legado muito maior: a coragem de recomeçar. Jonither e Francelis atravessaram fronteiras levando pouco na bagagem, mas carregando aquilo que nenhuma crise poderia tirar deles: a esperança, a união e a determinação de construir um futuro melhor para seus filhos. Hoje, sua maior conquista não está apenas na casa que está sendo construída, nas medalhas ou nos empregos conquistados, mas na história que inspira todos aqueles que acreditam que sempre é possível começar de novo.

Por Priscila Vilas Boas do Nascimento.

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