Raízes que Cantam e Dançam: professor transforma vivência escolar em obra literária

Por Redação 4 min de leitura

O ambiente escolar costuma ser um solo fértil para a criatividade e para o professor Lucas Valentim, que atua na Escola Municipal Dona Maria Chalcoski em Pinhais. Essa premissa se transformou em realidade literária. Ao trabalhar com turmas do ensino fundamental e da educação infantil, ele percebeu que a curiosidade e o entusiasmo das crianças pelo Maculelê, ritmo que envolve dança e percussão, poderiam ser o ponto de partida para algo maior.

Diante da escassez no mercado de materiais literários que abordassem a cultura afro-indígena e a ancestralidade de forma profunda, o professor decidiu criar sua própria narrativa, rascunhando ideias que preenchessem essa lacuna pedagógica. Assim nasceu “Raízes que Cantam e Dançam”, uma obra que não apenas ensina sobre tradições, mas utiliza a musicalização como uma ferramenta aliada da alfabetização, conectando as batidas rítmicas ao processo de aprendizado das sílabas de maneira prazerosa.

“Eu senti a necessidade de produzir algo que abraçasse a cultura com falas diferentes do que estamos acostumados, algo que fosse além do que a gente tem, que foca apenas em traços físicos. Eu precisava de um material diferente e, como não tinha, eu precisei criar”, declara o professor. A construção do livro foi um processo que durou cerca de 14 meses, envolvendo uma mentoria especializada em literatura infantil para lapidar o texto e garantir que ele transmitisse a cultura de forma autêntica e fluida.

O protagonista da história, Zeca, é uma construção coletiva inspirada diretamente nas crianças. Lucas relata que a indagação central do personagem, sobre de onde vem o movimento que faz o corpo querer pulsar e balançar, era a pergunta feita pelas crianças em sala de aula. Para dar vida a esse enredo, o autor mergulhou em suas próprias memórias de infância na Bahia, trazendo para as páginas o quintal de sua avó, um espaço de convivência familiar e transmissão de saberes ancestrais. “Na minha infância, quando eu tinha dúvida de alguma coisa, eu perguntava para minha avó”, recorda Lucas, pontuando que a estrutura familiar de Zeca, que vive com a avó e o tio, reflete a realidade de muitos de seus pequenos educandos.

Além do resgate cultural, a obra se apresenta como uma importante ferramenta pedagógica, utilizando a musicalização para auxiliar no processo de alfabetização. O professor destaca que a ritmação do Maculelê ajuda no desenvolvimento da criança de forma prática. “Quando a criança bate o ritmo cantando, é o mesmo processo que ela vai aprender ao saber como a sílaba se separa. O livro vem brincando, trabalhando o conteúdo de uma forma lúdica e leve”, explica.

A parte visual do livro, assinada pelo ilustrador pernambucano Ayodê França, complementa a narrativa com cores vibrantes e um senso de movimento constante, onde nem as casas nem as árvores são estáticas, parecendo dançar ao ritmo da história. “A ilustração tem um significado; ela vem escura e vai clareando. Representa o sofrimento que veio com o navio negreiro, mas traz a reviravolta de que precisamos vencer, nos alegrar e manter nossa cultura viva”, salienta.

O livro, publicado pelo selo Brasil de Todos os Povos, da Editora Inteligênios, já alcançou projeção nacional após ser apresentado, no mês de maio, naquele que é considerado o maior evento de educação e tecnologia do país, a Bett Brasil, em São Paulo, e distribuído para diversas cidades do Paraná. Embora essa seja sua primeira obra, Lucas revela que o caminho literário está apenas começando, já mantendo novos textos em processo de maturação para futuras publicações que continuarão a plantar sementes de diversidade na educação.

Gostou? Compartilhe!