Recém-nascido sobrevive a cinco horas sem batimentos cardíacos em UTI, após cirurgia de alta complexidade

Por Redação 6 min de leitura

O coração de Matias de Oliveira Resende ficou cinco horas sem bater. Ainda assim, o recém-nascido permaneceu vivo, consciente e, em alguns momentos, com os olhos abertos na UTI, enquanto se recuperava de uma cirurgia cardiológica. O desfecho, considerado excepcional mesmo entre cardiopatias congênitas graves, foi possível graças à atuação de uma equipe altamente especializada ligada à CardioWays, hub de cardiologistas criado para ampliar o acesso a tecnologias avançadas de cuidado do coração no Brasil, por meio de uma jornada de cuidado integrada, humana e multidisciplinar.

Na primeira semana de vida, quando a maioria dos bebês retorna da maternidade para casa, Matias enfrentou duas cirurgias cardíacas, uma delas com 12 horas de duração. O sucesso do procedimento envolveu diagnóstico precoce na gestação, planejamento e uso de suporte circulatório mecânico, como a Oxigenação por Membrana Extracorpórea (ECMO), tecnologia que substitui temporariamente a função do coração.

O caso é exemplo do tipo de jornada integrada de cuidado que a CardioWays defende – da identificação precoce à intervenção extrema – e reacende o debate sobre a necessidade de ampliar o acesso a terapias avançadas no país, como os dispositivos de assistência ventricular, conhecidos como corações artificiais.

Logo após o parto, no hospital Mater Dei Santo Agostinho, em Belo Horizonte, Matias nasceu com peso e estatura dentro dos padrões considerados saudáveis. Poucas horas depois, conforme previsto, foi transferido para uma unidade especializada devido a uma cardiopatia congênita diagnosticada em exame de rotina no quinto mês de gestação. A condição afeta cerca de um a cada 100 recém-nascidos vivos, e o quadro específico de Matias é ainda mais raro.

Diagnosticado com Síndrome de Hipoplasia do Coração Esquerdo, responsável por 2% a 4% das cardiopatias congênitas, o bebê apresentava baixo desenvolvimento de estruturas cardíacas essenciais, geralmente associado a prognósticos severos se não houver intervenção especializada.

Uma trajetória desenhada antes do nascimento

A condução do caso começou ainda durante a gestação, a partir de um ecocardiograma fetal. Com o diagnóstico, foi definido antecipadamente onde, como e por quem o parto e o tratamento seriam realizados, garantindo resposta imediata após o nascimento.

“Matias teve sua trajetória acompanhada desde a vida intrauterina por uma equipe multidisciplinar que reuniu cardiologia pediátrica, cirurgia cardíaca, terapia intensiva e especialistas em suporte circulatório. Essa integração é o que permite enfrentar casos no limite da vida e representa o futuro da cardiologia”, explica Marina Fantini, especialista em insuficiência cardíaca, cofundadora da CardioWays e coordenadora da equipe de Cardiologia Pediátrica da Rede Mater Dei de Saúde.

Segundo Marina, o objetivo da cirurgia de 12 horas foi reconstruir o arco da aorta e restabelecer o fluxo sanguíneo adequado, permitindo a recuperação do lado esquerdo do coração. “Sem essa abordagem, o paciente seguiria com apenas um ventrículo funcional, o que implicaria múltiplos procedimentos ao longo dos anos e impacto significativo na qualidade e expectativa de vida.”

ECMO como ponte

O uso prolongado da ECMO foi decisivo. “Um dos pontos-chave foi compreender que a ausência de batimentos cardíacos não representava uma falência irreversível, mas uma condição transitória. Isso justificou a manutenção da ECMO por cinco dias após a cirurgia, até que o coração retomasse sua função de forma autônoma”, explica a médica, que já participou de mais de 130 procedimentos com ECMO.

Este mês, Matias teve alta do hospital. A expectativa é de vida normal, com cura total e sem necessidade de novos procedimentos cardiológicos.

Para a CardioWays, o caso ilustra como tecnologias de suporte circulatório salvam vidas, embora evidenciem um gargalo estrutural do sistema de saúde brasileiro. “A ECMO é essencial para atravessar momentos críticos, como o vivido por Matias. Ao funcionar como um coração artificial, representa a continuidade do cuidado para milhares de pacientes que não teriam alternativas”, afirma Marina.

Uma lacuna nacional

Aparelhos conhecidos como corações artificiais fazem a diferença tanto em casos como o de Matias quanto nos de pessoas que precisam de outras soluções. Entre elas, os transplantes cardíacos.

Se na história de Matias o dispositivo utilizado foi a ECMO, em outras situações, como as insuficiências cardíacas avançadas ou refratárias, pode haver indicação para implante do Dispositivo de Assistência Ventricular Esquerda (DAVE). O DAVE, também um coração artificial, acompanha o paciente ao longo da vida e ajuda o coração original, quando enfraquecido, a bombear o sangue.

Segundo dados da Associação Brasileira de Transplante de Órgãos (ABTO), mais de 100 pessoas morrem todos os anos no Brasil enquanto aguardam na fila por um coração. Um estudo da Associação Americana de Cirurgia Torácica aponta que mais de 80% desses pacientes poderiam estar vivos três anos após o implante do DAVE.

É justamente para enfrentar essa lacuna que nasceu a CardioWays, hub criado por dez cardiologistas com atuação em algumas das maiores instituições de saúde do país. A iniciativa busca oferecer um tratamento integrado, ampliar o acesso a corações artificiais e estruturar centros capazes de oferecer essas terapias de forma segura e eficiente.

“O caso do Matias mostra o que é possível quando existe jornada integrada, tecnologia e equipe preparada. Nosso desafio agora é fazer com que esse nível de cuidado não seja exceção, mas parte da realidade do sistema de saúde brasileiro”, conclui a especialista.

Sobre a CardioWays

A alta incidência de insuficiência cardíaca – foram 2,5 milhões de internações entre 2011 e 2021, somente no SUS – levou um grupo de dez médicos, com experiência em algumas das maiores instituições de saúde do país, a unir-se por um propósito comum: oferecer novas possibilidades de tratamento a pacientes que antes não tinham alternativas. Assim nasceu a CardioWays, um hub de cardiologistas dedicado a promover uma jornada de cuidado integrada, humana e multidisciplinar. Entre suas principais soluções está o Dispositivo de Assistência Ventricular Esquerda (DAVE), conhecido como coração artificial. A tecnologia amplia as opções para pacientes inelegíveis ao transplante cardíaco ou que aguardam na fila por um novo coração, oferecendo chance real de recuperação e qualidade de vida. No consultório, parceira do médico, a CardioWays fomenta a visão multidisciplinar de cada caso e aprimora o alcance do cuidado. Nos hospitais, atuando como corpo clínico integrado, fortalece a assistência, adequa fluxos, reduz internações e eleva a eficiência do atendimento cardiológico.

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