“Memórias em prosa de uma Piraquara do século passado: um Auto de ano novo!”
Virada de ano na Quintino Bocaiúva era como um trocar de “folhinha”, o calendário velho, amarelado, saindo de cena pelo novo, o de realizações e frustrações por números e luas de esperanças.
Dada a contagem regressiva os foguetes pendurados na cerca pipocavam entre calorosos abraços, olhos marejados e Sidras com os votos de um bom ano.
A cabeça de porco era tradição, dito pelos antigos “fúça para frente”, sinal de prosperidade. Frango nem pensar, cisca para trás, atraso na certa, folga no galinheiro, sobrou pro chiqueiro!
Ceia simples, significativa, de acordo com os “costumes”. Cerimonial concluído, arrastava-se a mesa do centro, cadeiras num canto. Sala liberada, a sanfona do Mestre comia solta noite adentro cadenciando o arrasta pé.
Amanhecia e a criançada cedo batendo nas casas desejando “boas entradas de ano novo” com a mão estendida esperando uns trocados.
Menino tinha preferência, dava sorte! As meninas não se faziam de rogadas e desde cedo, na alvorada da infância, já desafiavam o “preconceituoso costume”.
Limpa feita na vizinhança, era chegada a hora dos tios. Reuniam-se na casa dos avós para o almoço. Conforme chegavam, era uma mão abençoando e outra no bolso tirando uns trocos.
Tá garantido as figurinhas do Armazém do Souza e uns dropes “Banda” na banca do seu Natal, e quem sabe até uns gibis na Estação de trem.
Foram muitas “folhinhas”, passaram-se muitas luas, porém aquela criança ainda teima nas lembranças pedir boas entradas de ano novo!
Por Edson Francisco “Kalunga” de Arruda.


